Quando a esperança de um sonho não termina na bala de um revólver
- heitor silva

- há 2 dias
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São George e Lennie, o pequeno e o grande ou o esperto e o ingênuo, a dupla de rara companhia entre dois homens que dependem do árduo trabalho no campo para sobreviverem à Grande Depressão (1929-1939), pelas redondezas de Soledad, Califórnia. E é sobre essas duas figuras peregrinas, que vão de fazenda em fazenda, que o autor norte-americano John Steinbeck retrata na sua pequena novela Ratos e Homens, de 1937.
De aspectos inversamente proporcionais, o que a obra tem de pequena ela tem de chocante. De leitura rápida e de conversa caipira, adentramos a uma realidade onde a violência é a moeda de troca dos homens, e se os homens que lá vivem mal tem o direito de existirem, imagine o que resta às mulheres, ou aos velhos ou aos negros. Um período de sobrevivência. Da vida vivida com pouco. E desse cenário temos o sonho: comprar a própria terrinha.
George é como o guardião de uma criança enorme, que é Lennie. O que esse brutamonte tem de forte ele tem de bonzinho, ingênuo. A dificuldade é ter de controlar a violência enquanto reação ao medo. E a violência de Lennie não é produto maldoso de uma perversa esperteza, ela é fruto de uma ignorância que o oprime tal qual uma maldição, uma dor crônica.
“A gente num precisa sê inteligente pra sê bom. Às veiz, eu fico achando que é bem o contrário. Se a gente pega um sujeito bem isperto, ele quase nunca é um sujeito bom de verdade.”
É Lennie quem ensina George a sonhar. O brutamonte, sem a ajuda de George, pouco conseguiria fazer, assim deduzíamos. Mas George insistia em não o abandonar. Talvez não o abandonava para que pudesse continuar a atender aos pedidos de Lennie, como se fosse para si:
“— Ah, George. Conta. Por favô, George. Igual que ocê fez antes. — Ocê gosta memo dessa história, né? Tudo bem, vô contá, e depois a gente vai jantá…”

Era só um sonho de Lennie. E era também de George, que não percebera que o sonho se tornara seu. Por dádiva ou desgraça, George também acreditava na terrinha. Talvez fingia madureza, mas no fundo Lennie o fazia sonhar. E esse sonho impregnou mais gente: um velho e um negro.
Lennie sonha em agradar os coelhos. Ratos não, frágeis demais, os coelhos são maiores que ratos, devem aguentar as mãozorras do brutamonte. Trabalhar para ninguém e viver dos bens da própria terra; sem ter de prestar satisfação ao patrão quando ir e vir. Se é pra ir à cidade, que vamos à cidade! Sonhava George.
Lennie nunca deixará de sonhar. George, como bem o conhecia, fez o favor de considerar até o final os sonhos daquela rara companhia para, então, com Lennie contemplando a outra margem do rio, como um bom amigo, ajudá-lo a dormir e, assim pensemos — a sonhar.
John Steinbeck
L&PM
144 páginas




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