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Para escrever como um leitor: A leitura como a sala de aula

  • Foto do escritor: heitor silva
    heitor silva
  • 17 de mar.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 6 de abr.

Você gosta de ler? E também gosta de livros? Bom, talvez eu tenha algo para te contar: Você é um... LEITOR(A)!


O quê?! Isso não é o suficiente para causar surpresas? Poxa vida... Me aconteceu de ser algo tão revelador enquanto eu lia Para ler como um escritor da escritora e crítica literária norte-americana Francine Prose...


Sendo assim, vou tentar mais uma vez!


Você gosta de ler? E também gosta de livros? Bom (dessa vez vai!), tenho algo para te contar: Você é um... ESCRITOR(A)!


Agora sim, surpresa!


Ah, mas aí você pode vir e protestar: "Num sou! Nunca nem escrevi, nem nada, seu loroteiro de uma figa!" Primeiro, vamos manter o decoro, por favor! Segundo, você só não É apenas por ainda não querer TER SIDO! Onde quero chegar com isso? É simples: só existe escritor uma vez que existe a inquietação ávida de um dedicado leitor. O escritor nada mais é que um leitor que não suportou a ideia de esperar até que o próximo livro chegasse à estante; ele mesmo teve de cuidar do problema! Por isso digo que você, também, é um escritor. Talvez a nossa desavença venha do fato de você, ainda, não ter arranjado um problema — só seu — para cuidar.


Livro Para Ler Como Um Escritor, de Francine Prose.

Pelo menos foi isso que me veio enquanto eu lia o livro de Prose. A autora nos apresenta a ideia do close reading, que nada mais é que uma leitura super atenta, nos mínimos detalhes, tintim por tintim, das passagens do livro que estamos lendo. Coisa de esmiuçar uma única página por horas e horas a fio. Mas veja bem, isso não é o que você deve fazer em TODA leitura que for aprontar. Não, não. É uma leitura de formação! Depois que você arranjou um problema para cuidar e, agora, ocupa-se em saber como faria para resolver essa dor de cabeça. Ou, ainda, nem precisa tratar sobre o caso de querer "fazer" algo sobre, também cabe muito bem, aqui, apenas a nua inquietação de buscar compreender melhor aquilo que vivemos nos deparando em nossas leituras. As estruturas, as palavras, as frases, seus efeitos e suas relações. 


Quando nos descobrimos LEITOR(A), tomamos consciência do fato de que só existimos graças à estranha existência de um texto que nos possibilita acessá-lo. A relação leitor-texto é um encontro bastante peculiar, pois suas realidades constitutivas são mutuamente imbricadas uma na outra. Um não existe sem o outro. Um livro que não é lido é um livro que não existe. Claro que não podemos contestar sua realidade material — olhem as cores dessa capa! As letras do título! Estou apertando as páginas bem aqui na minha mão, seu loroteiro! — Olha o palavreado! Acalme-se, tome um fôlego. Respire e pense comigo: será que não poderíamos concordar que um livro que nunca pudesse ser lido não passaria apenas de uma curiosa decoração? Uma decoração bem elegante, por sinal. Disso, lancemos mão de um infantil exercício filosófico: O que aconteceria se queimássemos TODOS os exemplares de Dom Casmurro do planeta terra (todas as traduções, edições, tudo de tudo)? O drama entre Bentinho e Capitu desapareceria imediatamente ou suas inquietações resistiriam enquanto houvesse leitores que um dia se maravilharam com a engenhosidade machadiana? Mas seriam essas recordações o livro propriamente dito ou apenas uma memória testemunhal da vez em que tivemos acesso ao livro? Compreende, agora, a dificuldade? Uma relação bem peculiar.


Prose, em Para ler como um escritor, nos guia nessa relação mais íntima com o texto. Primeiro devemos nos permitir sermos afetados, para que depois possamos investigar as razões pelas quais certos efeitos desencadearam em nós. No começo tudo pode parecer muito óbvio ou, até mesmo, o completo contrário. A questão é melhor compreendermos a como questionar o texto. Tal passagem me despertou certa ansiedade em função do uso excessivo de repetição? Sinto mais empatia por esta personagem, pois tenho acesso a tudo que se passa dentro da sua desorganizada cachola? Apenas alguns exemplos do que pode ser feito: basicamente, começamos a investigar com as mesmas perguntas que, muito provavelmente, o escritor também fizera quando desenvolvia as passagens. Alguns efeitos, ou talvez muitos deles, podem surgir da mais pura intuição, que também faz parte do ofício do escritor, pois, assim como dito antes, o escritor é um ávido leitor e, consequentemente, quanto mais leitura mais engenhosidade!


Retrato de Francine Prose
Francine Prose, autora de "Como escrever como um escritor"

Francine Prose, mesmo reconhecendo traços sistematizados em seu ensino, na formação literária de escritores, também reconhece que, muitas e muitas vezes, aquilo que foi dito antes é substituído por uma nova fala, o dito é revogado, e dá espaço para uma outra concepção totalmente nova que, mais tarde, também será substituída por uma nova e uma outra e uma nova. A grande lição, que a autora tenta nos mostrar, é a de que para fazer literatura, conceber histórias, não existe, necessariamente, uma maneira errada. E tão pouco todas estejam certas. O mais interessante é o fato de que a literatura é um universo amplo de tantas possibilidades e fins e riquezas que ao buscar enquadrá-la em um único plano, estaremos sempre confrontando sua essência inventiva. 


Não é à toa que costumamos chamar de Escolas Literárias as tradições ou grupos que compõem a história da literatura, pois qualquer livro transforma-se em uma sala de aula quando há nas trincheiras um leitor dedicado em desvendar sua leitura. E, assim como podemos aprender a ler como um escritor, faz-se de imediata urgência aprendermos a escrever como leitores! A leitura deve ser confrontada pela escrita. Temos o dever de escrever sobre o que lemos. Traçarmos uma arqueologia das nossas leituras. Isso também é fazer literatura.


Então, meu LEITOR(A), agora você se considera um pouco mais ESCRITOR(A)?


Francine Prose (trad. Maria Luiza X. de A. Borges)

Zahar

320 páginas

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