A crítica impressionista está morta? Uma conversa sobre como penso literatura
- heitor silva

- 27 de abr.
- 7 min de leitura
Atualizado: 7 de mai.
Tenho aversão a resenhas. Se bem que, tratando dessa maneira, me faço passar por um dedicado antagonista em busca de contrariar toda classe de resenhistas e ao que bem estão por aí a dizer. Não tenho nada contra! Apenas sofro de uma implicancite aguda quando me pego perguntando: “por que não escrevo resenhas?”
Parte dessa implicância, penso eu, vem do fato de não saber muito bem o que escrevo. Quando apareço por aqui, e publico algum texto sobre determinada obra, nunca é um texto que se assemelha ao anterior; e que, muito provavelmente, não se assemelhará ao que virá adiante. Mas, ao mesmo tempo que não sei como definir muito bem o que espero escrever — o que desejo, por assim dizer —, tenho em mim essa intricada convicção: não quero escrever resenhas!
E adoro resenhas. Digo com tranquilidade. Mesmo não sendo um de seus enérgicos consumidores, adoro o fato de existirem pessoas por aí falando sobre livros, pensando sobre eles. Toda leitura que é compartilhada, é uma valiosa realização literária. Sinto uma emergência enorme, nos tempos de hoje, de encontrar mais leitores que escrevem suas leituras. Leitores também escrevem. É por isso que tenho estado aqui. Sou um leitor e pretendo ser leitor na minha escrita. Mas rapidamente empalideço ao pensar que, numa resenha, eu teria de informar e ser claro.

Que obrigação besta! Minha maior vontade é a de não ter de informar nada e muito menos ter de me fazer esclarecido. Quando escrevo, sempre me imagino numa conversa com alguém que já teve a mesma leitura que eu. As resenhas que normalmente leio são essas de livros que, assim que termino a leitura, sinto uma curiosidade tremenda em encontrar as ideias do Outro para botar as minhas próprias em xeque. Mas não pensem que abandono aqueles que desconhecem as minhas leituras. Situação essa que, matematicamente tratando, é muito mais comum de acontecer do que seu caso contrário. Também escrevo para os que não conhecem. Não resenhas. E por isso temos esse impasse: como atrair esse leitor que não conhece o que leio sem ter de informar e ser claro?
Pela curiosidade! Assim gostaria de acreditar que fosse. Engendrar meu texto a partir da linha tênue de minha literária curiosidade. Um relato onde não se pretende barganhar o texto com o leitor — não pretendo convencer ninguém a nada —, mas, ainda sim, trazer esse leitor para mais perto de minha curiosidade. Nutrindo a ilusão de que, se formos capazes de conquistar a atenção do leitor, com um texto autêntico sobre a obra, faremos com que quem lê interrompa a leitura, guarde-a para depois, e que corra atrás de encontrar a obra que estamos tratando para, também, inteirar-se do assunto assim como fizemos em algum momento antes. Não me importo de ser escanteado por efeito do desejo pela leitura. Torço para que voltem, depois da obra lida, para que possamos dar cabo da nossa conversa. Caso não aconteça, não serei triste, o esquecimento é elemento constitutivo da maneira que se dá o nosso pensar.
Por isso me pergunto: A crítica impressionista está morta? Perdemos o direito de falarmos por nós mesmos? Trazer pelos sentidos o prazer de desgostar por desgostar, ou gostar só por gostar. Não sermos obrigados a compreender tudo de uma só vez. Na realidade, cuidar apenas de contemplar as presenças e ausências que nos suspendem a um espaço abarrotado de poucas certezas e tantas e mais sensações. E digo isso sendo uma pessoa que carrega um grande interesse teórico-metodológico pela literatura. Não me estranhem. Saibam que possuo a enjoeira do pesquisador. (Aos colegas de pesquisa, isso se trata de um elogio!) E ainda temos, mesmo assim, convivendo com esse desejo analítico que carrego, o desejo de exprimir o fruir que me acomete, que se revela numa falta à modo, quase, de uma necessidade vital (literariamente falando). Às vezes penso que esse meu incômodo todo seja por efeito de sempre pensar a literatura por através das influências da memória.
Aos poucos estou aprendendo a anotar. Esse sistema antigo onde tomamos notas daquilo que lemos, ou fazemos, e que possui um funcionamento muito eficiente para superar a nebulosidade que rege os mecanismos da nossa memória. Sem muito aprofundar, penso que seja fácil tecer a óbvia constatação de que somos seres de memória. E é a partir da memória que tentamos lidar com o fato literário, com o prazer que sentimos por gostar de literatura. Gostamos de ler literatura, conversar literatura, ouvir literatura. Mas nem sempre é possível anotar literatura. — Não falarei por todos, irei assumir apenas por mim, caso também faça sentido para você, bem, que sorte! — E desse viver literatura sob os domínios da memória, existe aquilo que entendo como uma angústia literária: a de muitas das vezes não saber tratar de literatura por, simplesmente, não ser capaz de recuperar todas as preciosidades, satisfações, que então havia apreendido na minha experiência vivida com os textos. É quase como um querer comunicar o incomunicável. A mesma sensação de um amo quando quer fazer que seu gato entenda a razão de sua companhia felina ser tão gratificante para ele. Imagino que a literatura, diferente de outras artes, por possuir esse caráter temporal onde não somos capazes de apreendermos sua existência de maneira imediata, está mais propícia a sofrer das influências da memória do que se a compararmos com a pintura, por exemplo, que possui o privilégio de ser apercebida por um sentido mais nobre, que é o da percepção. Assim posto, como não iria querer me apegar à fruição dos sentidos num estado de espírito onde a memória me causa essa incômoda angústia literária?
É como fazer do limão a limonada. A seletividade da memória passa de limitante a criadora. Ao invés de lamentarmos a parcialidade do fenômeno literário, nós nos agarramos às noções que ficam. É um pente fino de ideias, onde esse pente é a nossa própria experiência de leitura. Não é causa de que se foi lembrado é mais importante. É no sentido de que se foi lembrado, eu fiz lembrar. E se fiz, fiz por quê? Daí a busca por esse impressionismo literário. Atentarmos aos nossos sentidos, atrações e repulsas, o que é meu e o que não quero que seja. Agora eu faço a pergunta: numa resenha, como isso seria possível? Como ser bem esclarecido quando o leitor passa a ser sua própria leitura? Perderíamos o texto ou ainda seria possível encontrá-lo em mim?
Essa falação toda me remeteu ao ensaio de Susan Sontag, Contra a interpretação, uma pessoa de difícil definição (se não somos todos), que poderíamos chamar de escritora, ensaísta, cineasta, filósofa, professora, crítica de arte ou ativista estadunidense. Um texto lido já há um tempo e que, aparentemente, se pudermos confiar no que diz a minha memória, resiste algo que, para mim, continua a fazer bastante sentido. A ideia de recuperarmos nossos sentidos ao experienciarmos uma obra de arte. Já sei! Como não tomei notas anteriormente, para solucionar os efeitos do esquecimento, e se eu interromper a escrita de agora para voltar ao ensaio e relê-lo? Sinto a necessidade de trazer ideias do Outro para que eu não permita que o tédio alastre-se por aqui ao ficarmos apenas nesta maçaroca sentimental, que esta falação está se mostrando (mesmo estando, aqui, defendendo o meu direito de também falar por através das maçarocas sentimentais).
Acredito ser inevitável concordar com Sontag; ou pelo menos é isso que sinto assim que termino a releitura de seu ensaio. Nos acostumamos à uma realidade onde as coisas não são o que são. Ou, talvez, seja melhor dizermos o modo como suprimimos o direito das coisas serem o que são e, simplesmente, implementamos a doutrina da interpretação, onde “A tarefa da interpretação é praticamente uma tarefa de tradução. O intérprete diz: Olhe, você não vê que X na realidade é — ou na realidade significa — A? Que Y na realidade é B? Que Z na realidade é C?”. Como a autora percebe, o fervor pelo projeto de interpretação vivido pela contemporaneidade se dá por um franco desprezo pelas aparências. Caso este bastante interessante, pois, assim como ela também destaca, a própria distinção entre forma e conteúdo não passa de uma mera ilusão.
A autora não exclui que, num dado momento da história da arte, a questão da interpretação teria tido seu valor criativo e revolucionário. A questão para nós é a de que, hoje, isso já não é mais. A minha emergência por querer tratar sobre a fruição daquilo que leio, pode ter sua causa naquilo que Sontag diz:
“Nossa cultura se baseia no excesso, na superprodução; o resultado é uma perda constante no grau de agudeza de nossa experiência sensorial. Todas as condições da vida moderna — sua abundância material, seu puro e simples abarrotamento — se somam para embotar nossas faculdades sensoriais. E é à luz da condição de nossos sentidos, de nossas capacidades (e não da de outra época), que se deve avaliar a tarefa do crítico.”
Ao mesmo tempo que comecei nossa conversa alegando querer distância daquilo que é formal e claro (nada contra resenhas!), como se quisesse me despir de tudo que é metódico — interpretativo —, renunciando, até mesmo, do meu caráter investigativo para poder tratar de literatura à minha maneira, termino o que, aqui comecei, encontrando nas palavras de Sontag um lugar onde uma crítica literária comprometida também pode ser feita sob o desejo de falar apenas sobre aquilo que está diante da gente, e nada além. Não sofrer com a angústia de não recordar as mil e uma teorias, referências, embasamentos ou mesmo me conceder o direito à incompreensão. Permitir-me não entender sem culpa. Assim como a autora conclui: “O objetivo de todos os comentários sobre a arte deve ser, hoje, o de tornar as obras de arte — e, por analogia, nossa própria experiência — mais, e não menos, reais para nós”, o meu desejo é o de poder tratar de literatura estando atento àquilo que sinto, ou deixo de sentir, que penso ou deixo de pensar, ainda dando espaço às contribuições dos demais, porém privilegiando o meu viver literário.
Será que a crítica impressionista é o que Sontag queria dizer por “uma erótica da arte”?
Susan Sontag
Companhia das Letras
392 páginas




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