O prazer da leitura e a hostilidade do ler
- heitor silva

- há 3 dias
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Se um dia alguém virar para você e disser ah, como gosto de ler!, faça-me esse favor: DESCONFIE! — digo isso como conselho de velho amigo, pois ou trata-se de lorotísse barata, ou traiçoeiro vestígio de psicologia perversa.
Francamente, não deveríamos ainda confundir os pés pelas botas, é de conhecimento comum que ler é da ordem do terrível; ou estaria, eu aqui, um desocupado a contar abobrinha? Deixemos nossas fantasias de lado, abandonemos certo clubismo e sejamos apenas honestos: trata-se de um fato, de um axioma literário, assim como também temos que a leitura é aquilo que acontece em seu estado mais maravilhoso.
Primeiro que não é confortável. E digo isso por razão simples: onde está conforto não está o ler, está preguiça; que de nada combina com o que estamos nos propondo a fazer. Que atire a primeira pedra aquele que, amornado em conforto, nunca despertou do cochilo assustado com o engasgar do próprio ronco, completamente rendido. E ainda, constrangido com a ideia de um outro o ter pego na sua vulnerabilidade, rapidamente põe-se a dissimular leitura por páginas em que, quando não amassadas, revelam parágrafos que aparentam mais de um outro livro que não o seu. A verdade é que ler não é agradável. Em alguns casos chega a ser até mesmo doloroso! Uma vez peguei para ler Ulisses na cama, que me perdoe Joyce, mas foi sorte a minha que no dia seguinte coincidiu de ser dia de feriado santo.
Aos mais ardilosos, sei o que devem estar pensando: “Quanta besteira! Arranje logo uma tecnologia e resolva-se de uma vez por todas!” e não tiro a razão da revolta. Com o grande avanço tecnológico, enfrentar os temíveis calhamaços, tão amedrontadores, realmente ganhou um baita de um reforço. Agora o terror não é mais físico — ou apenas —, e sim mais mental; ou melhor dizendo, cognitivo. As memórias de tantos prazos ganham aqui os holofotes. Adentramos, agora, ao reino das palavras. Das grafias, dos sentidos, das pontuações e dos espaços. Ler não é natural. Forçamos nosso cérebro a realizar uma atividade extremamente contranatural. Simplesmente o convencemos de que letras existem e, quando agrupadas e reagrupadas e agrupadas de novo, carregam sentidos em si; de certa forma sentidos dentro das palavras! Pensem no tempo ainda de criança, mais precisamente, pensem no dia depois de quando alfabetizados e vê se não se lembram do sentir da angústia, da sensação ao reparar que não mais aperceberiam o mundo sem antes sofrerem da leitura das palavras — a angústia do ler. PARE; AÇOUGUE; EDIFÍCIO; CENTRO; ESCOLA. Desde então, sofremos da ditadura da palavra.
E por que insistimos tanto em ler ? Porque leitura é algo incrível! Entendemos a leitura, aqui, como aquilo que fica. Não as palavras, só pelas palavras, mas as impressões; e, às vezes, as palavras também, àqueles mais apegados (ou controladores...). Leitura é tentar expressar o quanto gostou de um livro e habilmente fracassar. Não é sobre o que é descoberto, mas sobre o ato do descobrir. Me aparece como um exercício de rememoração. Tem livro que uma vez lido jamais podemos reler, pois o tornamos, em nossa leitura, livro esse muito mais interessante do que realmente é. A leitura é conversa — conversão —, uma discussão. Criar inimizades só para convencê-los do contrário. Sobre o ler, é a solidão do leitor, sobre a leitura, é a companhia de uma nação.
13.07.26
Heitor Silva



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