A realidade onírica é quando sonhamos os sonhos acordados
- heitor silva

- 4 de mar.
- 4 min de leitura
Atualizado: 6 de abr.

Pensar que uma VACA existe é como pensar o que é a realidade. Se alguém chegar até nós e gentilmente nos pedir para que pensemos numa vaquinha, sua existência é objetiva — as orelhas, o fuço, as cores malhadas: isto é a realidade. Mas como essa realidade pode vir a ser de propriedade onírica? Como os sonhos podem atingir certa materialidade objetiva? Talvez, sob as garras afiadas da astuta verdade, estamos mesmo condenados a concordar que são ideias que não podem. Apesar disso, Haruki Murakami em seu livro Crônica do pássaro de corda possui a brilhante capacidade de nos convencer de que o que há de real numa vaca é feito da mesma matéria do que há de real num sonho, no nosso imaginário.
É uma nova realidade. Uma nova sensação, concepção, discernimento do que estamos testemunhando diante da gente. A realidade onírica de Murakami pode até não ser tocada, mas é possível sentir sua intensidade na pele sensível da palma da nossa mão. Como num instante congelado de impressão de estarmos prestes a tocar algo, mas que nunca a alcançamos por completo, apanhamos-a de fato.
Foi a primeira vez que entrei em contato com a escrita fantasiosa do escritor japonês, coisa da qual ele é conhecido por. As outras duas vezes que li seus textos foi o romance Norwegian Wood (que transborda matéria humana) e o volume de contos Homens sem mulheres. Em ambos os casos, não tive a impressão de fantasia, ou talvez não tenha sido marcante, ou determinante, para que as histórias pudessem existir. Já em Crônica do pássaro de corda as coisas tomam uma nova direção, no meu itinerário para conhecer a extensão da obra do autor.
A trama rodeia o drama de Toru Okada, camarada na casa dos 30 anos que largou o emprego em um escritório de advocacia e, de lá para cá, vive os dias sustentado por sua esposa: Kumiko, que trabalha em uma editora de revista de culinária saudável. O pontapé inicial dos mistérios que cercam a vida de Okada e Kumiko é o desaparecimento do gato do casal, Noboru Wataya, que fora adotado bem nos primeiros dias de casados, como se o bichano simbolizasse a união firmada entre os dois, ou digamos que o amor. Nome do gato dado em “homenagem” ao irmão de Kumiko. Um homem que, pouco mais tarde, descobriremos ser um tremendo de um canalha, que nem Okada e nem a irmã nutrem simpatia por ele. A partir do desaparecimento, muitas personagens passam a permear a vida aquietada do nosso desempregado protagonista.
A primeira é uma adolescente que Okada encontra durante uma das buscas para achar o gato, no beco sem saída atrás de sua casa, May Kasahara. Travando diálogos dos mais diversos, a personagem revela-se grande influência na jornada do nosso herói. Junto a ela temos as irmãs Kano, com nomes de ilhas. A mais velha, Malta Kano que, certo dia, liga para Okada alegando que ela poderia ajudá-lo a encontrar o gato; e Creta Kano, a mais nova, que ajuda a irmã no serviço nada convencional. E tantos outros como: Sr. Honda, o primeiro-tenente Mamiya, Noz-Moscada e Canela. Enfim, personagens essas que, de uma forma ou de outra, arranca Okada da inércia que perfaz os seus dias.

É a partir das irmãs Kano que as barreiras da realidade onírica agora passam a colidirem com as barreiras da realidade que sustenta a existência de Okada. A partir delas, o cotidiano de Okada é atravessado por momentos, experiências, acontecimentos que desenvolvem uma nova concepção de realidade no protagonista. Acontecimentos esses que se intensificam a contar do grande incidente da trama: o desaparecimento de Kumiko, sua esposa. Sem razão aparente, justificativa ou aviso prévio, a esposa de Okada, numa manhã qualquer, simplesmente desaparece de sua vida. E tudo que acontece a partir daí nos conduz à uma nova espécie de compreensão onde, junto ao protagonista, também nos submetemos ao processo de familiarizar-se com essa nova realidade, que possui um sistema de regras ou uma constituição, no mínimo, distinta da nossa.
O livro nos convida a convivermos com a história. São, quase, 800 páginas de eventos que acontecem e acontecem e acontecem e você, caso esteja impaciente, se sentirá de mãos atadas à uma sequência de causos que parecem nos levar, cada vez mais, para o mais próximo do nada. Sem pé, nem cabeça, apenas sensação de uma coisa. Mas a convivência amplia nosso olhar. A familiaridade com as personagens, com o próprio Okada, as filosofias individuais, as incongruências, as mesmas perguntas, os mesmos lugares, as mesmas estranhezas, tudo nos proporciona um afetuoso olhar para a trama. Conviver com o livro nos permite tempo suficiente para que nos acostumemos à ideia de abarcarmos o surrealismo de Murakami à sua maneira. Desta sorte: não passamos a entender as novas regras daquela realidade, mas passamos a aceitar o fato de que não precisamos compreendê-las racionalmente; aprendemos a lidar com uma nova matéria de síntese. Aqui, as barreiras que antes se colidiam, que a função tinha de distinguir o que é real do onírico, agora elas passam a se confundirem.
Murakami faz uma dupla jornada. Ao mesmo tempo em que busca pelo cerne das coisas, da realidade, do homem, o autor também faz um esboço investigativo do sentimento que pairava no Japão do pós-guerra. Seu trabalho de pesquisa para contextualizar e narrar os episódios vividos na guerra da Manchúria, e em território russo, contribuem para que suspeitemos quais são algumas de suas intenções com a narrativa. Podemos dizer que, através de elementos fantásticos e do olhar surrealista, o autor pretende repensar a sociedade japonesa de sua época.
Já faz um tempo que concluí a leitura e, desde então, sigo impregnado do surrealismo do livro, pelo fantástico de Haruki Murakami. Crônica do pássaro de corda é uma obra que acaba por te convencer da ideia de que é possível sonhar os sonhos acordados.
Haruki Murakami (trad. Eunice Suenaga)
Alfaguara
768 páginas



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