Os mochileiros inventaram o kindle!
- heitor silva

- 27 de fev.
- 3 min de leitura
Atualizado: 6 de abr.
Quando você pega para ler o primeiro livro d'O guia do mochileiro das galáxias em um kindle — o volume um da trilogia de cinco —, e se depara com a primeira menção ao fantástico guia para exploradores intergalácticos: é inevitável, você automaticamente vai associar o que é dito ao próprio dispositivo que empunha em sua mão. O leitor de livros digitais, que já possui uma mágica tecnológica intrínseca, com pouco esforço imagético transforma-se, rapidamente, no próprio guia para mochileiros que você acabou de conhecer!
"Parecia um aparelho absurdamente complicado, e esse era um dos motivos pelos quais a capa plástica do dispositivo trazia a frase NÃO ENTRE EM PÂNICO em letras grandes e amigáveis. O outro motivo era o fato de que este aparelho era na verdade o mais extraordinário livro jamais publicado pelas grandes editoras da Ursa Menor — O Guia do Mochileiro das Galáxias."

Não se iludam, acho pertinente pontuar, eu não gosto de naves espaciais; e tão pouco gosto de robôs, com suas capacidades extraterrestres de processarem informações sobre tudo quanto há de vidas e mundos inimagináveis. No entanto, quando o nosso protagonista bem no início da narrativa, quando ainda mal fomos apresentados um ao outro, encontra-se prostrado num lamaçal diante a própria casa defendendo-a aos berros das escavadeiras que ameaçam demoli-la para a construção de um desvio, bem, com toda certeza, o mínimo a se fazer é cedermos em empatia por Arthur Dent, o nosso terráqueo sobrevivente da destruidora intervenção dos Vogons.
Repetindo: eu não sou o maior apreciador de aventuras espaciais. Dito isso, é aí que devemos reconhecer a maravilhosa capacidade imagética, extremamente bem humorada, de Douglas Adams, o autor da série de livros, quando o próprio dá vida e contextualiza suas personagens no universo espacial dos mochileiros das galáxias. Mesmo não familiarizado com aquelas estranhas nomenclaturas, naves espaciais, robôs, seres de outras raças, outras culturas, civilizações, economias, mesmo me sentindo um estrangeiro meio àquela excêntrica festividade, fui apanhado pela capacidade técnica, e bem aguçada, do autor em construir impressionantes narrativas do gênero comédia. Ele não se utiliza do humor para dar ritmo e desenvoltura às suas passagens, ao seu texto. Na realidade, é a própria narrativa que se mostra recurso empregado por Adams para que pudesse nos contar suas infinitas piadas, que se revelam sempre, legitimamente, engraçadas.
"Arthur ficou ouvindo os detalhes técnicos que Ford lia, mas, como não entendia quase nada, começou a pensar em outras coisas, enquanto seus dedos deslizavam por uma incompreensível fileira de computadores, até apertar um botão vermelho e tentador num painel. Imediatamente o painel iluminou-se, com os dizeres: Favor não apertar este botão outra vez. Arthur ficou quieto na mesma hora."
Assim como acontece com Arthur e seu amigo Ford Prefect — um alienígena de um planeta próximo a Betelgeuse ilhado na terra há 15 anos e responsável por salvar a vida de seu amigo terráqueo, Arthur Dent —, as aventuras criadas por Douglas Adams são de tirar o folego! O primeiro livro da trilogia de cinco nos apresenta uma narrativa enérgica, bem agitada e com poucas pausas para descanso. Os personagens constantemente estão em apuros e o que resta ao leitor é contar com as coincidências tão bem vindas que atravessam as aventuras da dupla, assim como quando foram salvos pelo gerador de improbabilidade infinita.
"— Improbabilidade infinita — disse ela, paciente. — Foi você mesmo que me explicou. A gente passa por todos os pontos do universo, você sabe. — É, mas é uma tremenda coincidência, não é? — É. — Pegar uma pessoa naquele lugar? Dentre todos os lugares no Universo? — É realmente... Quero calcular isso. Computador!"

O guia do mochileiro das galáxias é um livro para todos os públicos. Todavia, munido de conhecimentos básicos bem fundamentados em disciplinas como biologia, química ou física, a narrativa de Douglas Adams ganha um teor extremamente inteligente, além da inevitável trama bastante humorada. Um ótimo livro para ser apreciado como leitura de divertimento, capaz de te descansar de leituras mais densas ou carregadas do velho lenga-lenga acadêmico.
Douglas Adams
Editora Arqueiro
208 páginas



Você leu todos os livros? Acho a maneira que o autor descreve o universo tão ricamente espetacular