Elogio da madrasta e a literatura erótica
- heitor silva

- 27 de fev.
- 3 min de leitura
Atualizado: 6 de abr.

A sensação que tenho, e digo isso sem quaisquer fontes comprobatórias e, sim, apenas especulação especulativa, é a de que Mario Vargas Llosa certo dia, encafifado com sua tediosa carga de trabalho, olhou para o lado, para uma de suas estantes de livros e, divagando em devaneios, então, se perguntou: será que eu seria capaz de escrever uma boa “novelinha erótica”? — E nesse mesmo instante um lapso de inventividade atravessaria o escritor peruano ou com a figura de Lucrecia, ou com a figura de Fonchito, ou com a figura de dom Rigoberto, ou, mais ambiciosos podemos ser, com a cena-chave do enredo todo: a, então, redação erótica de Alfonso; cujo título: Elogio da madrasta.
A Literatura Erótica deve que sempre existiu e sempre existirá (queiramos crer nisso sim, ou não). Sexo, amor e drama, são temas que oprimem não só nossa Literatura, como também nossa vã Filosofia, há milênios. Coisa que arriscaria, aqui, a dizer é a seguinte: talvez, na história dessas disciplinas, valendo não só das prosas, mas conosco, bem como, as poesias, entre todas elas existem poucas obras eróticas que transcenderam a vulgaridade de suas cenas e tomaram o erotismo por uma disciplina da materialidade psicológica humana.
Não é fácil corporificar um texto, como uma Literatura Erótica prescreve. Mas Llosa demonstra grande domínio (já adiantando o sucesso de sua tarefa) ao ditar o tom da narrativa como um amante que só ama, e se sente amado, ao toque de sua amada. O corpo é quase como personagem nessa história — melhor dizendo: os corpos —, que sofrem as abluções, quase ritualísticas (para não cravarmos que seja), de dom Rigoberto; as fantasias e desejos de dona Lucrecia (que se vê entre a cruz e a espada); e a paixão, tragicômica, de Fonchito por sua madrasta; não são apenas passagens, meras citações que carregam amenas menções aos corpos de seus personagens. Longe disso, Llosa utiliza de seus próprios corpos para imprimir sua narrativa, contar sua história, impor seu enredo, ao tecer ideias que atravessam a concretude desses corpos sob o tom dos cabelos, dos olhos, dos aromas, das curvas, quero dizer, de tudo que é visto e vira palavra para o competente autor.

Mas os sentidos dos corpos são tão preciosos aqui, tão necessários, que nem só falar sobre eles, recitar, dissecar seus sistemas, mostra-se suficiente. Então temos as imagens, pinturas fabulosas, de pintores clássicos que pintaram os corpos, os cupidos, capturaram as fantasias e os desejos em delicadas belíssimas pinceladas. Llosa não se sente satisfeito em apenas dizer, aproveita, também, para mostrar aos seus leitores. Expõe quadros que se revelam deslumbrantes interlúdios que não deixam, jamais, de serem importantes à compreensão do todo, digo até mesmo, serem a própria obra transcrita por através de figuras. Aqui, a palavra vira corpo na sua mais poética percepção.
O enredo de Llosa é simples: a lua de mel de um segundo casamento e as fantasias entre o ingênuo e o vulgar. Mas o autor não resiste em fazer arte. Recorrendo ao recurso da intertextualidade, que tanto enriquece a literatura como um todo, Llosa dialoga com pinturas, com mitos, das mais diversas origens, e com sentimentos. Ele intercala a crueza do enredo com fantasias que refletem os ânimos de seus personagens. Elogio da madrasta é um livro que, para mim, começa como uma grande brincadeira, uma provocação — ao pé de sua escrita —, e termina como a obra que fora capaz de corporificar o desejo em palavras que traçam uma ébria Literatura Erótica universal.
Mario Vargas Llosa (trad. Paulina Wacht e Ari Roitman)
Alfaguara
160 páginas



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