top of page

A autoficção como uma fotografia feia

  • Foto do escritor: heitor silva
    heitor silva
  • 1 de mar.
  • 2 min de leitura

Atualizado: 6 de abr.

Capa do livro O Filho Eterno de Cristovão Tezza

Ler autoficção, sem saber que se trata de autoficção, é se deparar com suspeitas pela leitura que se comportam como pulgas por detrás da orelha.


Não sabia que O filho eterno de Cristovão Tezza era a vida do autor exprimida em vias de romance; mas que nada leva de romantizada. Ler a autoficção de Tezza — até como o próprio escritor brinca em entrevista dada para a Veja—, é perceber que a ficcionalização de suas memórias criam monstros onde nem o próprio criador é capaz de reconhecer as próprias criaturas. O pai-personagem do livro de Tezza, que muito bebe de sua história de vida, vive uma realidade à parte dentro do livro a qual pertence. Mesmo nunca ultrapassando os limites do vivido. O distanciamento do narrador para com essa personagem central é a medida necessária que permite ao leitor o pensar sob efeito dos próprios juízos; sem ter de atazanar Tezza sobre o que se trata tico ou quoi se trata teco, ou condená-lo ao tribunal da moral ou das boas condutas. Lembrem-se: é outra coisa que não ele, necessariamente, pode ser que bem seja uma fotografia feia.


O bom é que, quem se afasta da hipocrisia ao reconhecer que viver é conviver com fotografias feias, não se limita a sentir, somente, a raiva de testemunhar o feio do outro, que é confidencializado sem qualquer tipo de permissão nossa. Claro que não deixa de ser revoltante, enjoativo, feio, ver o outro confessar com tamanha sinceridade. Pode soar, até mesmo, como uma espécie de: orgulho? Nos sentimos cúmplices, trapaceados. A voz de leitura confunde ambos espíritos. Enunciar palavras é torná-las nossa e, como criança que experimenta falar palavrão emprestado, quando não nos pertence nos sentimos usados.


Retrato de Cristovão Tezza
Cristovão Tezza, autor de "O filho eterno"

Depois que sobrevivemos ao nocaute inicial, ao horror de testemunhar o que é de mais sincero emergir com tanta clareza diante da gente, nós desenvolvemos um certo grau de empatia que se sustenta na coragem do assumir a feiura (feia). Nós também gostaríamos, em algum momento, ou em certa medida, termos a mesma coragem para assumir essa coisa orgânica que damos o nome de: existência. Mas nos foge, rapidamente, toda a convicção. Para que preocupar? Que coisa feia!


Ler O filho eterno, de Cristovão Tezza, foi ter de aceitar a feiura humana para então se emocionar com o alcance de seus afetos.


Cristovão Tezza

Record

224 páginas

Posts recentes

Ver tudo
A ÚLTIMA VEZ QUE VI UM PEIXE, crônica

Não é todo dia que nos deparamos com pombos suicidas. Ou até venha a ser e só agora pude notar isso. Mas é certo, em toda oportunidade: um susto! Já foram duas tentativas, inclusive, e nas duas estava

 
 
 

Comentários


avatar do Não Leio Sinopse

um laboratório de escrita por heitor silva

  • Youtube
  • Goodreads
  • Instagram

© 2026 por NÃO LEIO SINOPSE

bottom of page